Um poeta pernambucano: Manuel Bandeira1
Joaquim Cardozo
A alma de um homem silenciosa e mansa que empresta aos objetos mais familiares uma confortante qualidade moral fazendo-os sofrer e viver
Acerca de Manuel Bandeira, o poeta pernambucano cujos versos estão a enriquecer a poesia brasileira de uma beleza toda nova de acentos e de vozes e de um frescor todo íntimo de emoção, escreveu o Sr. Joaquim Cardozo para o “Diário de Pernambuco” o pequeno estudo que se segue. É um estudo carinhosamente feito com simpatia e penetração. De uma viva sensitividade, é Joaquim Cardozo um dos poetas jovens mais interessantes de Pernambuco.2
De Manuel Bandeira, maravilhoso temperamento de poeta novo, até ontem quase desconhecido em Pernambuco, apesar de aqui ter nascido e vivido alguns anos, e que em boa hora a distinta “diseuse” Margarida Lopes de Almeida revelou à nossa gente, fazendo-se aplaudir nos Sinos, muito se tem falado; na comovedora melancolia, na tristeza deste homem doente, tristeza que impressiona, se aprende e se lastima à mais ligeira leitura dos seus livros.
Poesia feita de “mágoa, de desalento, de desencanto” é na verdade a deste poeta amargurado, e além disso, versos formados no mais agudo individualismo, até mesmo aqueles do Carnaval cuja impersonalidade aparente apenas acentua o relevo pessoal numa criação simbólica.
No entanto, se a melancolia é o estilo de Manuel Bandeira, o seu sentimento expressivo das cousas, a fatal contingência da sua força emotiva, diversos são os ritmos que caracterizam os seus três livros Cinza das horas, Carnaval e Ritmo dissoluto ultimamente enfeixados num único volume.
No primeiro destes, Cinza das horas, publicado em 1917, onde qualquer cousa da alma comovida de Antonio Nobre paira religiosa e serena como o reflexo da Bondade de Deus no êxtase de um santo, há a poesia de um angustiado que procura a consolação no amor e na paisagem onde a inteligência se dispersa na retenção de modalidades impressivas:
– As grandes mãos da sombra evangélicas pensam
as feridas que a vida abriu em cada peito
uma consolação abstrata cheia de vagas incertezas e tristes pressentimentos.
Até que te surpreenda a carne dolorida
aquela sensação final de eterno frio,
Abre-te à luz do sol que à alegria convida,
E enche-te de canções, ó coração vazio
mal percebida nas vozes simultâneas que vêm da sombra.
Um carneiro bale.
Ouvem-se pios funerais
…………………………………….
Os tanoeiros do brejo
Malham nos aguaçais
……………………………………
E o luar úmido… fino…
Amavio… tutelar…
Anima e transfigura a solidão cheia de vozes
entrevista numa esperança de cura
E tudo isto vem de vós, Mãe Natureza!
Vós que cicatrizais minha velha ferida.
Assim como a natureza com o enternecido encanto dos rumores distantes e a música misteriosa das águas, o Amor também lhe proporciona momentos de verdadeiro conforto espiritual e neste sentido todos os poemas, ferindo a mesma nota melancólica, estão repassados de uma ternura inconfundível “bendizendo o amor que Deus lhe deu” como um “dom sagrado”, o “único para o seu coração” e de uma frequente e saudosa lembrança do tempo de menino, falando da esperança como a “ama de todos os mortais”, notando que “ainda perdura no coração da irmã o seu afeto de criança”, sentindo sangrar tudo que há nele de infantil quando escreve aquela Elegia para minha mãe.
Nem sempre, porém, o poeta alcança este contentamento, este alívio triste e vago. Assim, por vezes confundindo a lembrança das afeições mais caras ao ambiente que o envolve, enche-se de desânimo, julga-se desamparado e esquecido, fala com repugnância do passado e da saudade, odeia a solidão e o silêncio:
O tempo… Horas de horror e tédio da memória.
Ah! Quem mo reduzira ao minuto que passa.
Ou abandonando a sua grande sensibilidade interior se apraz em fazer ironia, num esforço difícil de se tornar alegre, e escreve O luar inútil, Poemeto irônico. No entanto, este humorismo não consegue esconder a dolorosa mágoa que domina e frequenta a grande alma contemplativa que ele possui e sente vibrar no segredo harmonioso da vida.
Livro de fina espiritualidade, de vivo contacto amoral com a natureza, flor estranha de graça e de amor é o primeiro livro deste poeta bizarro.
Um sorriso
Vinha caindo a tarde. Era um poente de agosto.
A sombra já enoitava as moitas. A umidade
Aveludava o musgo. E tanta suavidade
Havia, de fazer chorar nesse sol posto.
A vibração do oceano acariciava o rosto
Como incorpóreas mãos. Fosse mágoa ou saudade,
Tu olhavas, sem ver, os vales e a cidade.
– Foi então que senti sorrir o meu desgosto…
Ao fundo o mar batia a crista dos escolhos…
Depois o céu… E mar e céus, azuis, dir-se-ia…
Prolongarem a cor ingênua de teus olhos…
A paisagem ficou espiritualizada.
Tinha adquirido uma alma. E uma nova poesia
Desceu do céu, subiu do mar, cantou na estrada…
A ânsia de alegria ardentemente desejada que, nesta análise da poesia de Manuel Bandeira, já fiz notar no primeiro livro, se desenvolve e amplia no segundo, Carnaval, onde na posse de uma maior liberdade de técnica (notam-se nele muitos versos inteiramente livres) descreve com certa impetuosidade o amor material, viciado, diabólico; num desejo fremente de abafar e ocultar a sua alma dolorida e desalentada.
Alegria nervosa e ilusória que ele busca ansiosamente e que lhe foge como o encanto das sereias passa no grande destino desesperado de Lenau.
No entanto, vestido de Pierrot, a cara pintada de bistre e alvaiade, desejando, querendo ser alegre, o poeta não faz do seu Carnaval uma festa da alegria coletiva, expansão vertiginosa das multidões que se deslocam e se embaralham num desejo de mútua penetração, numa necessidade de sentimento unânime, alegria que se goza a hora marcada, sem evocações e sem lembranças, vagando à superfície das sensações brutas, à sorte dos imprevistos e da aventura, alegria de paixões instantâneas e entusiasmos efêmeros.
Este Carnaval, que daria a um poeta mais dominado pelas impressões diretas um poema de ação simultânea e geral, tem no poeta dos Sinos um caráter fragmentário e analítico, apanhado na complexidade da vida cotidiana; é a história trágica diurna e noturna de todos os vícios e de todas as nevroses, é a sua própria ilusão da alegria; prazeres artificiais, almas postiças, máscaras sombrias dos decadentes e degenerados. E isto é escrito e sentido de tal forma sutil que muitas composições do livro parecem fugir a esta perspectiva, tão aparentemente dispersiva a natureza dos assuntos.
O soneto Verdes mares é um flagrante carnavalesco, carnavalescas são a Vulgívaga e ironia eterna de Menipo. A morte fantasia-se de dama branca e aparece sorrindo ao poeta, corporizando a imagem subjetiva de uma grande dor sofrida, guardada por muitos anos na memória, conservada com a força de uma superstição cristalizada na memória.
Carnaval (…) da vida cotidiana, alegria mentirosa, refúgio das almas simples e ingênuas, Pierrot, Pierrete, Colombina e Arlequim, eterna e monótona ironia da Felicidade.
Pierrot neste livro é um símbolo estranho, um símbolo de fé, de esperança, de humildade, é o homem vencido, desprezado, cujas aspirações se abismam, que se deixa empolgar pelos vícios ruinosos, subitamente reintegrado na vida sedutora, pária que surge homem forte para a luta e diante do destino.
Ele que estava de rastros
Pula e tão alto se eleva
Como se fosse na treva
Romper a esfera dos astros!..
Este Pierrot lembra o Clown de Banville.
Ce clown saute si haut
Qu’il creva le plafond de toile
……………………………
et le coeur dévoré d’amour
alla rouler dans les étoiles.
No clown porém está a ânsia sempre renovada de alcançar, de atingir mais, cada vez mais pela força interior, pelo valor espontâneo e próprio; Pierrot é a validade concreta de um insucesso que afina, modela, espiritualiza a alma sequiosa de seduções materiais, tornando-a sonhadora, edificando-a, iniciando-a numa moral religiosa.
Esse é o Pierrot da canção das lágrimas que passa dolorosamente cheio de sonho e de desgraça e que se acolhe sofredor, místico e resignado, à alma tristemente lírica das rimas e da música.
Além disso, o clown, homem de músculos elásticos, de esgares funambulescos, criação ridículo-trágica do humorismo inglês, é a ação desenvolvida e ágil, saltando sobre trampolim, e trapézios, numa exibição de atitudes que se dinamizam. Pierrot é o espírito, a elegância e a graça, preciosa, envolvente e amável como o criou Willete, como o pintou Watteau.
Mas desta expressão inicial que transformações deram-lhe uma história infeliz, fizeram-no triste e desventurado. Manuel Bandeira envolveu-o num ar de bondade e de desprendimento místico.
Este Carnaval assim sem multidão, sem música barulhenta, ruidosa, estonteante, Carnaval que ele pesquisou na sua vida interior como bem confessa no último trabalho do livro, se lhe deu a criação mística de Pierrot não teve poder expressivo para explicar a liturgia, a religiosidade dos gestos, das danças, das fisionomias, das gentes que vão de noite como em procissão pelas ruas, satisfeitas porque conseguiram ser alegres, à luz das lâmpadas que enlividescem os rostos cansados, ao som do batuque bárbaro dos ranchos e cordões, vestidas de todas as cores como numa volúpia de liberdade, da liberdade de se criar um tipo próprio e isolado, livre das leis da moda, livre dos costumes prosaicos de todos os dias.
Mas se lhe falta este grande aspecto místico está muito longe, todavia, daquele Carnaval sarcástico e trocista, sensual e grosseiro de Gavami; é menos irônico e mais diabólico.
Desse Carnaval subjetivo ao Ritmo dissoluto, saindo do realismo artificial, o poeta volta ao espiritualismo da Cinza das horas, porém de uma feição diversa, mais comovente, mais suave, cheio de segredos e de confidências, o ouvido atento espreitando os ruídos que vêm de fora, murmúrio d’água, voz de sinos, clamor do mar, como se todas as cousas, a natureza toda sofresse com ele a mesma dor, descobrindo uma música em tudo, sentindo a música do próprio silêncio:
Do silêncio musical, cheio
De sentido místico e grave,
Ferindo a alma de um enleio
Mortalmente agudo e suave.
Ah, tão suave e tão agudo!
Parecia que a morte vinha…
Era o silêncio que diz tudo
O que a intuição mal adivinha…
Nos versos deste livro há o quer que seja de religioso e de santo, uma piedade cristã que afaga, envolve as cousas, que sonoriza todos os ruídos, uma bondade infantil e meiga.
Aliás, este sentimento infantil enche as páginas do Ritmo dissoluto, em que o poder emotivo, libertando-se dos velhos moldes da poesia, infunde no poeta uma sensibilidade nova, longe das ideias gerais, das ideias comuns e assisadas da gente grande; é o menino que quer, que sente, que fala, não atende às leis, nem aos conselhos do bom senso e deixa crescer, brilhar a individualidade pelo prazer intuitivo e pela harmonia dos sentidos.
Pobre menino doente a olhar através da vidraça os balõezinhos que sobem, os pequenos vendedores de carvão, as carroças de leite, os sapos e os vaga-lumes, a observar na rua pequenos detalhes desprezados, quase impercebidos como qualquer garoto se volta para apanhar um objeto insignificante abandonado no chão; esse olhar amoroso para as cousas esquecidas, esse interesse pela ingenuidade dos brinquedos se veem em Noite morta, Na rua do sabão, Meninos carvoeiros, Balõezinhos.
Em A Mata é o desejo de saber tudo, a vontade de compreender os ruídos das cousas vendo na agitação das árvores uma multidão em delírio.
A Balada de Santa Maria Egipcíaca, que desprezando as leis conserva, entretanto, o espírito deste velho sistema político, é a história contada com uma clara ingenuidade de criança, com esse ar de estranheza e de candura de quem começa a discernir entre o bem e o mal e nessa iniciação toma-se de uma inquietação.
É quando na tarde que desce os sinos batem claros, lentos e graves:
Sino de Belém
Sino da Paixão…
O som dos sinos é para o poeta unicamente o ritmo das pancadas, música evocadora e mágica que enche a alma e faz vibrar toda a paisagem. Livros que cantam, sinos que dobram, continuamente por toda a vida.
A música dos sinos que vem pelo ar lembrando os seus mortos queridos, sua mãe, sua irmã, é como uma carícia material à sua triste felicidade resignada:
Que mais a vida me pode dar
Tenho vontade de me matar
Sou tão feliz.
Com este espírito infantil muitas das poesias de Manuel Bandeira estão impregnadas de uma volúpia de ser triste, de uma satisfação prazente do sofrimento; no Gesso, no Soneto há ainda um certo intimismo que em nada se assemelha ao de François Coppée porque é mais íntimo e mais discreto, é a alma de um homem silenciosa e mansa que empresta aos objetos mais familiares uma confortante qualidade moral fazendo-os sofrer e viver.
Ah! Esta volúpia amarga de viver, esta “tristeza dos que perderam o gosto de viver” e que em tudo e acima de tudo adoram a vida!
O que eu adoro em tua natureza
Não é o profundo instinto maternal
Em teu flanco aberto como uma ferida.
Nem a tua pureza. Nem a tua impureza.
O que eu adoro em ti – lastima-me e consola-me!
O que eu adoro em ti, é a vida.
Mas o poeta ouve na sombra o murmúrio d’água, som tão frequente aos seus ouvidos, e ele diz que a “vida passa, que passa e a mocidade vai acabar; e vem a noite mansa, a noite vem e a morte se aproxima”; e dentro da noite e perto da morte sente-se a alma do poeta brilhar como uma luz viva na treva.
Antes de adotar a inteira liberdade do verso moderno, de abandonar a rima e a métrica já a poesia de Manuel Bandeira possuía desde o primeiro livro um espírito original e independente, algo de irreconciliável com o estabelecido até então e que lembrava de alguma forma a influência do valor intuitivo nas obras artísticas, este valor que levado ao exagero e calcado no “consciente” de Hartman produziu os poemas de Tristan Tzara, os desenhos de Picabia e, em suma, toda a falange destes incompreensíveis e simpáticos “Dadas”.
Há frequência de trabalho intuitivo na maioria dos seus últimos versos de que Os sinos são um exemplo frisante – poema musical escrito para o prazer intelectual de interpretação entre os leitores; é o sino de Belém alegre que bate pelos batizados, é o sino da Paixão dobrando pelos que morreram, é o sino do Bomfim, íntima repercussão da voz do sino.
E esta intuição caracteriza-se nele pelo particularismo de sua visão infantil, conhecida como é a liberdade, a intransigência e o trabalho meticuloso da observação pitoresca entre os meninos, sem o recurso de idéias eruditas, exprimindo apenas a maneira de ver pessoal, sem o recurso quase sempre ordenado, uniforme e metódico das inteligências cultivadas.
Porém isto não equivale a dizer que a arte de Manuel Bandeira não tenha método e que a sua inteligência não seja cultivada, apenas que o seu método e a sua cultura não prejudicam a sua interessante faculdade de sentir e não destruíram a sua voluntariosa apreensão infantil.
As incoerências notadas nos seus poemas, as oscilações de sentimento, a música opulenta da sua frase, as felizes e novas associações de adjetivos revelam o trabalho conjunto da inteligência e da intuição.
É o que se poderia chamar “surenfance”, tomando o termo de empréstimo a Jean Cassou.
1925