A literatura, seus porquês, comos e vizinhos afins1
Fábio Lucas
Talvez na escrita o ser humano tenha sentido,
pela primeira vez, o espetáculo da transcendência.
Impulsionado pelas demandas de José Domingos de Brito, ocorrem-nos indagações específicas acerca das questões básicas concernentes à arte de escrever, aos motivos e às formas da criação literária. Por fim, acabamos por imaginar o duo seguinte, de cogitações sobre o tema da Literatura e de suas interferências com outras artes.
1. De volta à pergunta: por que escrever?
Quando me deparo com o paciente trabalho de José Domingos de Brito a rebuscar nos mais variados autores a resposta plausível à pergunta “por que escrever?”, especulo se tal questionamento não estaria ancorado no grande mar das perguntas sem resposta.
José Domingos de Brito colecionou, para publicação, respostas surpreendentes dos maiores escritores do mundo, depois de uma pesquisa que se aproxima de 700 amostras.
Mas, a um segundo pensamento, cogito se a vida não será tecida eternamente em torno de querelas sem solução.
Escreve-se, desde que se estabeleceram os primeiros sinais de comunicação, por intermédio de traços convencionais. Talvez na escrita o ser humano tenha sentido, pela primeira vez, o espetáculo da transcendência. Nela, tal como no parto, dá-se vida a um corpo externo, de duração presumivelmente mais duradoura do que a do corpo gerador. Tem-se o mistério pelo qual, mediante o objeto, o sujeito procura lograr um pouco mais de sobrevida.
Roland Barthes acredita que “escrever é sacudir o sentido do mundo, propor-lhe uma interrogação indireta, a qual o escritor, em última análise, se abstém de responder. A resposta é dada por cada um de nós agregando-lhe sua história, sua linguagem, sua liberdade; mas, como história, linguagem e liberdade mudam infinitamente, a resposta do mundo ao escritor é infinita. Não se para nunca de responder ao que foi escrito fora de toda resposta: afirmados, postos em discórdia, depois substituídos, os sentidos passam, a questão perdura.
“Assim” – prossegue Barthes – “se explica sem dúvida que há um ser trans-histórico da literatura; este ser é um sistema funcional de que um termo é fixo (a obra) e o outro, variável (o mundo e o tempo que consome esta obra).”2
Outro círculo de especulação se coloca quando se estuda o sistema de comunicação. Quem escreve é, ao mesmo tempo, exemplo e intérprete, fonte e sequência, começo e continuidade, convergência e expansão, emissor e destinatário.
Escreve-se para dar sentido à vida, ou mesmo para se saber a razão por que se escreve. Escreve-se para se descobrir o motivo de se escrever. Entra-se numa petição de princípio indevassável, numa tautologia sem termo, até que se descobre que não escrever é impossível. Mas há gradações. Há escritores que se põem (ou são postos) no horizonte da missão. Sentem-se tão necessários quanto os profetas. Tão acreditados quanto estes.
O espírito romântico, baseado na projeção da individualidade, exaltou o escritor como agente demiúrgico, criador de novos horizontes para as esperanças da humanidade. E essa aura de licença cercou-o até o advento da modernidade, quando o intelectual, como ser excepcional a ser reverenciado pelo grupo, entrou em hibernação. Perdeu parte do prestígio e da auréola da distinção que o qualificava.
Não obstante, ainda hoje há uma convivência ambígua entre a escrita e as personalidades bafejadas pela glória terrena. Tendo os meios de comunicação se deslocado da era da imprensa para a era da eletrônica, criam-se os deuses massificados: esportistas, políticos, artistas de cinema, da TVTV e da música popular. No entanto, a revanche da escrita é muito sutil. Apesar do volume de aplausos e honrarias que cerca os agentes favorecidos pela mídia, em cada um deles adormece o desejo íntimo de ultrapassar-se ou de, pelo menos, ultrapassar o diminuto ciclo vital. Aspiram à escrita, quer sob a ação direta de escrever, quer sob a garantia de traduzir a fama em obras biográficas ou depoimentos passados para o papel. O problema está em romper o silêncio post mortem.
Maurice Blanchot (A parte do fogo. Tradução de Maria Scherer. Rio de Janeiro: Rocco, 1998) percorre o diário de Kafka para investigar o que é literatura, assim como as tormentas do ofício de escrever. E detém-se em Mallarmé para dignificar o papel do silêncio, dos “brancos” no interior da escrita. No dizer de Blanchot, um dos desejos mais antigos da literatura é justamente “escrever para chegar ao silêncio, escrever sem perturbar o silêncio”. Sim, o silêncio faz parte da linguagem, segundo ele. Se nos calamos, essa será uma das maneiras de nos expressarmos.
A escrita e, em consequência, a literatura são tanto um meio heurístico quanto comunicação de estado emocional. A obra assim se oferece como poder epistemológico de descoberta e aquisição do conhecimento, dotada, ainda, de energia para o estabelecimento do homem na sociedade e no universo. A obra, portanto, instrui e comove. Determina o papel do humano na torrente das palavras. Provê misteriosa segurança emocional que outrora se denominou catarse.
Mas isso não é tudo. A literatura pode ser também fonte de prazer singular, situado no jogo ou no riso. Alternativa ou conjuntamente jogo e riso, pois proporciona ora euforia lúdica, ora descontração jocosa.
A palavra, no eixo de sua contextualização, achegou-se ao conceito, ou ao símbolo, e até ao mito. Variando entre tantas esferas, serve ao homem no seu eterno ímpeto de ultrapassar-se na duração dos anos. Eu me pergunto por que José Domingos de Brito se propôs a investigar esta questão: por que escrever? É uma indagação filosófica. E nenhuma literatura progride sem que se proponham perguntas sem resposta, pois o esforço de alcançá-la redunda numa aproximação sucessiva ao núcleo da verdade. José Domingos de Brito colecionou centenas de respostas e a questão continua aberta. Não é estimulante continuar? A busca é a literatura e a busca não tem fim.
2. Como escrever?
Enquanto a questão “por que escrever?” procura investigar o processo discursivo como formador do “eu”, a pergunta “como escrever?” encara o aspecto instrumental da palavra. Ou, visto de outro ângulo, os modos como o escritor utiliza o aparato necessário ao registro do texto, enquanto elabora o parto da criação.
No primeiro caso, teremos opções de gênero literário ou motivações temáticas, ou, ainda, relativas aos apelos do público e da época. O escritor delineia o leitor a que se dirige e pré-formaliza o conteúdo da mensagem.
Na segunda hipótese, o autor lida com os meios: lápis, caneta, máquina datilográfica, computador, tendo em mente a objetivação da mensagem, o conforto físico e a economia de tempo.
Apesar de somente ter acesso ao lado físico do escritor, o leitor certamente colherá exemplos e sugestões, aproximando-se do indevassável interior do escritor, onde se encontram as adormecidas palavras à procura de articulação num discurso literário. Tudo lhe é novo e serve de estímulo à conquista da face oculta do ser humano.
Mais ainda: na linha do como escrever subjazem a noção de estilo e a de aprendizado. O estilo se designa como uma emanação original e intransferível. Um idioleto, um corte idiossincrático, em confronto com os signos compartilhados, aqueles que se buscam na gramática, nas regras de bem escrever, que formam exemplos3.
Albalat se preocupava com o modo de escrever baseado na lição dos clássicos. A versão de sua obra para o português se deveu significativamente a Cândido de Figueiredo, autor de, entre outras, Falar e escrever e O que se deve dizer.
Na apresentação de Regras práticas para bem escrever, Laudelino Freire diz: “Este ementário deve ser para o escritor o que para o sacerdote é o breviário: livro de regras que ele deve ler todos os dias, como todos os dias lê o sacerdote o seu livro de orações.”
Notável documento a ressaltar o espírito regulador e normativo da época, associando o uso da língua à prática religiosa, ambas as esferas dominadas pela noção de ordem.
Diríamos, para resumir: o “por que escrever?” tem a ver com a textualidade, ou seja, com a inserção do indivíduo no mundo das relações, com o aprendizado da fala e a organização do repertório. Algo de tão substancial que se confunde com a própria razão de existir; já o “como escrever” alinha-se no campo da “gramaticalidade” e associa-se ao âmbito das regras ou das noções preestabelecidas.
Durante a vigência do Estruturalismo falou-se muito no texto como a máquina de significar e na sua composição e posterior decomposição, a fim de que o analista procurasse nele as leis de funcionamento.
Tal configuração da dinâmica textual aproximava o intérprete da pulsão do “como”, do mesmo modo como se surpreende uma criança a “desmontar” o brinquedo, com o propósito de conhecer como ele é “por dentro” – a eterna curiosidade sobre os aspectos da coisa e seus modos de ser.
Mário de Andrade definiu o seu processo de criação poética como a junção da palavra à crítica, de tal forma que inicialmente o poeta lança na página em branco a primeira versão do poema, no embalo do fluxo da criação. Depois, passado algum tempo, o autor deveria regressar ao texto para corrigi-lo, realizar as podas e acréscimos necessários à melhor expressão. A conquista da oralidade.
Desde que autor e obra se tornaram “públicos”, graças ao ordenamento da sociedade moderna, burguesa e urbana, dirigida ao mercado e à compra e venda dos produtos literários, é natural que o “consumidor conspícuo” queira saber tudo acerca de seu ídolo. No ativado sistema de circulação de objetos e símbolos, todos reunidos sob a forma de mercadoria, nada mais natural que se formem sentimentos de sacralização do objeto e se despertem ávidos interesses de se apropriar dos sinais distintivos do autor ou da obra recobertos de uma aura santa.
Daí a pertinência do “como escrever”. A informação monumentaliza o autor e atende à curiosidade suplementar do leitor, que deseja ir além da obra. O “como” pode condensar-se num fetiche, num ato mental de transferência.
A questão posta diante do autor – como escreve? – acaricia o seu ego, açula o seu lado exibicionista, alia-se à fama, põe juntos o autor e as suas palavras artísticas, sequiosos por se darem em espetáculo.
Dá-se a ampliação do aspecto adjetivo, instrumental, da arte da escrita. Além de se indagar a condição primeira que motiva o escrevente, quer-se conhecer a peculiaridade de cada um para atingir seu objetivo.
Cremos que tal indagação floresceu ante a transformação do ato privado do escrever em atividade pública. Inicialmente, o escritor se dirigiu aos seus iguais. Depois, ao público, entidade anônima, mas qualificadora de seu trabalho. É quando vem a imprensa e se coletiviza a divulgação da escrita que o autor se liberta do controle religioso e ideológico do registro das palavras. Seculariza-se a expressão e perde-se, em parte, a dominação dos conteúdos.
Tornando-se o autor e a obra entidades públicas, circulantes, desperta-se a curiosidade do leitor acerca dos “porquês” e “comos” da produção literária.
No Brasil, convém lembrar os “arquivos implacáveis” de João Condé, que externalizaram muitas vezes o “como” de vários escritores. Uma curiosidade de bastidores. A designação de “arquivos implacáveis” veio de Carlos Drummond de Andrade, cuja frase passou a presidir as páginas jornalísticas de João Condé: “Se um dia eu rasgasse os meus versos, por desencanto ou nojo, não estaria certo de sua extinção: restariam os arquivos implacáveis de João Condé”.
Era o que encontrávamos nas páginas centrais do célebre suplemento literário “Letras e Artes”, que acompanhava o jornal domingueiro A Manhã (1948 e 1949).
Do mesmo modo, a revista de maior circulação do país, O Cruzeiro (1952 a 1958), transcrevia, como o “Letras e Artes”, fotos, originais, confidências, assinaturas, fac-símiles e respostas dos principais escritores brasileiros, além de um questionário repleto de perguntas provocativas e surpreendentes. Era o próprio flagrante da “vida literária” posto nas mãos do consumidor.
Havia mesmo uma subseção chamada “biografia do livro”, na qual o autor fornecia os elementos genéticos da obra. Ali pululavam os “comos” da atividade do escritor.
Assim, na esteira de G. Charensol, autor de Comment ils ecrivent (Paris: Montaigne, 1932, prefácio de Fernand Vanderem), José Domingos de Brito, notável pesquisador, consagrado autor de Por que escrevo?,4 vem a lume a fim de trazer o produto de mais uma de suas incansáveis investigações: Como escrevo?
A tarefa levou-o a auscultar inúmeras fontes literárias, nacionais e estrangeiras, a fim de que respondam acerca do modo como os artistas da palavra se comportam no momento de lançar no papel ou na tela do computador os signos particulares de sua criação. Aqueles que se tornarão o deleite e a paixão do leitor.
Serenos ou aflitos, calmos ou nervosos, lúcidos ou ingênuos, na obra desfilam incontáveis escritores a revelar mais uma faceta da imorredoura ilusão literária.
[1] Extraído de O poliedro da crítica. Rio de Janeiro: Editora Calibán, 2009
[2] Sur Racine. Paris: Editions du Seuil, 1963.
[3] ALBALAT, A. A formação do estilo pela assimilação dos autores. Lisboa: Liv. Clássica, 5. ed., 1944. SC HWAB, Artur. Novas louçanias de linguagem. Juiz de Fora: Esdeva, 1975, e Novíssimas louçanias de linguagem. Rio de Janeiro: Francisco Alves, 1982 e FREIRE , Laudelino. Linguagem e estilo. Rio de Janeiro: A Noite, s.d., e Regras práticas para bem escrever. Rio de Janeiro: A Noite, s.d.
[4] São Paulo: Novera, 2006, 2. ed.