O que mais importa, o corpo ou a palavra?
Foed Castro Chamma
Sobre a obra de Walmir Ayala
Tudo é severo e sincero.
Só a palavra é testemunha desse cosmo assombrado.
Em edição primorosa de 1950, Coleção dirigida por Edla Van Steen, a Global entrega às livrarias a seleção de Marco Lucchesi dos melhores poemas de Walmir Ayala. O poeta gaúcho, jovem contemporâneo de Mário Quintana, chega ao Rio aos 21 anos de idade e logo incorpora-se ao grupo Poeta Novo da página “Poesia Experiência”, de Mário Faustino, editada no Suplemento Dominical do Jornal do Brasil dirigido por Reynaldo Jardim. Estendendo a revisão gráfica do jornal à revisão crítica da moderna literatura brasileira, o editor possibilitou o surgimento de uma constelação de poetas da qual Walmir Ayala fazia parte.
Contrapondo-se ao panorama em curso da nova poesia, os valores da Geração emergente eram influenciados pela originalidade imagética do Livro de sonetos e Invenção de Orfeu, de Jorge de Lima, em relação ao empirismo de Manuel Bandeira, o realismo de Carlos Drummond de Andrade e a musicalidade dos versos de Cecília Meireles. Cecília vinha do grupo FESTA, do qual faziam parte Tasso da Silveira e Augusto Frederico Schmidt. A nova Geração oferecia como síntese uma poesia subjetiva fundamentada em um simbolismo a Verlaine e Mallarmé, Cruz e Sousa, Augusto dos Anjos, superado aparentemente pela Semana de Arte Moderna de 22. A influência do Futurismo de Marinetti e o conceito tecnicista de uma poesia industrial negados pela vanguarda de Bandeira, Drummond, Cecília e Murilo Mendes, dentre outros, é avaliada por Mário Faustino, no Rio, ao lado de Benedito Nunes, em Belém do Pará, dando-se conta ambos da redescoberta da metáfora como universo da realidade transformada em imagem, cujo fenômeno se manifesta na linguagem poética a nível de invenção e produção do saber da nova Geração..
Marly de Oliveira em seu livro Cerco da primavera e Lélia Coelho Frota em poemas irônicos e sentimentais, de “QUADRAS LEVES PARA MIRLIFLORES”, definem uma Geração que retomaria o hermetismo da simbólica mítica, que Marly revê de modo ensaístico na poesia de Leopardi, apontando um verso que sintetiza a brevidade de vida, ao lado de João Cabral de Melo Neto, celebrado em seu primeiro livro Pedra do Sono como um elogio à Juventude. Há na retomada brasileira do simbolismo uma inquietadora metafísica que se contrapõe à ciência e à tecnologia. Walmir Ayala no entanto, de modo solitário, estará acima dessa inquietação estilística, mergulhado em seu fascínio pelo verbo e a denúncia de prisioneiro da imagem e da realidade.
Convicto do que vê, sente e pensa, refere-se a si mesmo como um novo Narciso. dominando a língua e o pensamento, ou melhor, o pensamento e o espírito. Nessa dimensão fenomenológica a poesia de Walmir desenvolve-se de modo natural, rente à realidade, convertida em imagem, símbolo e Signo, de cuja tríade a linguagem poética se manifestará nas transformações cogitadas outrora por Orfeu e sua lira, concentrado o Poeta Grego na Verdade e a Beleza.
O que encontramos na poesia de Walmir Ayala é o dispositivo da linguagem conduzida como urgência ao registro e o Acaso: a lógica espelhada na imagem é foco de luz do espírito criador e brasão. Nem o formalismo metafórico baudelairiano, que induziu a poesia européia ao Simbolismo, nem o surrealismo rimbaldiano afetaram a cumplicidade virtual do poeta gaucho a denunciar sua trágica solidão, permanecendo fiel ao espírito da tragédia como fundamento de vida e a linguagem como recurso de ser-e-estar, que os românticos assumiram em detrimento do cânon como afirmação individual, da mesma maneira que Agostinho no Trezentos assumiu, na Itália, com a Cidade de Deus a antropologia precursora do Romantismo.
Se se buscar na poesia a história do Homem se verá que no barro jaz o Anjo caído e o Arcanjo velando a solidão de todos os anjos. Esta é em princípio a teologia de Swedenborg, compreendida em longo estudo por Jorge Luís Borges. O filósofo sueco acreditava na regeneração do ser elevado à consciência de si. A certeza da precariedade da vida é um fincar pé no cotidiano o qual não escapava a Walmir, construtor de pedras-de-toque, retomando o teor virgiliano da representação numa simbiose do clássico e o contemporâneo. O epigrama é recurso algumas vezes como o da jovem tuberculosa e a mariposa, à p. 167 do livro em análise. Atribuir condição romântica à poesia de Walmir, evidencia-se na síntese lapidar da cor vermelha como delírio do rosa. Teologia nenhuma é tão explícita quanto a indagação CRÊ EM DE US? (p. 174). Não há síntese melhor para a dor que o cravo, p. 176. A versatilidade do poeta salta de um livro a outro como o trapézio para o bailarino.
A transformação preconizada na lira de Orfeu realiza-se no cordão interminável do tempo. Herança teológica, os fragmentos à margem do foco de luz são uma parte das contas de um rosário. A disponibilidade gidiana do observador denuncia o cúmplice do cotidiano disfarçado em crítico comunicador. Sua confissão é de precários dons identificados com os “anjos de sarong”, no poema O Carnaval, pondo à mostra as qualidades descritivas que usava como crítico de artes plásticas cujo realismo emoldura a bela cidade do Rio de Janeiro. Em “Eis o mar”, o cauteloso domínio celebratório é uma retórica sintetizando magnitude poética. Com o adorno da língua o poeta comunica o mistério do Amor e o nascimento dos filhos que somos, criaturas de Deus.
Há uma liturgia implícita no canto do poeta que nos remete à antiga dança dos corifeus. Sem a concisão ortodoxa dos metafísicos, encontramos na metáfora o domínio pleno da imagem. O rosário de pérolas negras desenha os “tempos de Arcanjos generosos em sua índole duvidosa na reunião substantiva de vocábulos. A reação ao que se impõe como revelação é atributo do Sentido, transformado em entendimento e linguagem, que o poeta recria ao nível de invenção e legenda. Em Caramujo o leitor encontrará esta joia:
Róseo avesso de flor.
Cornocópia de esperas
Ou sexo coroado:
Caramujo, secreto
Artífice das águas.
Brilhante esmalte, azul
Franja de carne impura.
Longínquo som vazio
De um mar inconsumado.
Coração, polvo ou duna
Que te forjasse em fogo
E nódoa: mão fechada.
Caramujo, engrenagem
Onde se fundem cruas
As rosáceas do mar.
O Gato é fio e vidro, sombra e sonho. No cotidiano restaura-se o universo da palavra, objeto fundamental da realidade, joia poliédrica da matéria de luz. Walmir se aproxima dos clássicos configurando sínteses exemplares em fragmentos e celebrações retomadas ao Destino. As divagações metafóricas são um hiato no jogo de palavras que se distanciam do real concreto submetidas ao fenômeno da língua cuja constatação resume a realidade como foco da mente saturada da certeza ótica interminável da diferença comprovadora da negação como identidade. Os desvarios do poeta são assomos reprimidos, que libera, desafiando a semelhança. Diante da imagem o poeta reconstrói uma teologia que se estenderá ao infinito onde a luz aguarda o corpo de Deus. Não há ironia na poesia walmiriana. Tudo é severo e sincero. Só a palavra é testemunha desse cosmos assombrado. A palavra a emoldurar o ar e a respiração é transformada em lavra da terra e lavoura renovada.
Nos primórdios a Poesia era jornal e canto. A notícia era dada sob a forma de construções metafóricas de modo a tornar o fatum um mito. A cultura ágrafa conferia ao Aedo a qualidade de produtor do pensamento com origem em conhecimentos que recebia e eram transformados em legenda. A implicação política e derrota de Príamo decretadas por Agammenon ao lado de Menelau evidenciam a dimensão histórica do Mito. O rapto era um desencontro de águas que o fantasma substituía e transformava em sombra ou ausência, demência e certeza da precária certeza do estar no mundo. Não surpreende a lucidez de Marco Lucchesi na seleção e abordagem interpretativa dos poemas de Walmir Ayala. A contundente certeza do emérito professor, poeta e exegeta coloca Walmir na linhagem de um realismo crítico de modo singular e grandeza inegável. Em Memória de Alcântara o romanceiro árabe do poeta cego é retomado e colocado à disposição do Aedo. A economia de palavras é digna dos provençais. Os poemas são heranças tardias da imagem viva na memória como louçania da Palavra, cuja lavra é um caleidoscópio capturado como sinal da relação com o real negado e transformado em linguagem. A imagem é Signo e discurso cuja substância e extensão são aprisionadas nas grades da língua. De modo a se observar na poesia de Walmir Ayala o resumo técnico de registro virtual como testemunho vivo da fugacidade do Acaso onde presença e ausência são simultâneas.
O que se espera deste catálogo de poesia da Global editora é o imponderável, no qual se concentra a Verdade e onde a Beleza é um rápido incêndio a repercutir nos que a recolhem certos de que preservam das trevas a luz. Este é o fim da imagem ao reproduzir a Palavra. Sua doação é o holocausto a que se submete toda denúncia. Será sacrifício? Ou conquista de brasões que ornam a ligação do pensamento e a linguagem como unidade concentrada em seu uso originário? Cada título é uma síntese reunida na seleção de Marco Lucchesi. O conjunto walmiriano é o “Edifício e o Verbo”.