A sintaxe das ruas
Márcio-André
As ruas recordam seu passado de labirinto dissimulado,
sem minotauros ou muros,
ainda assim cheio de armadilhas.
A rua é uma escrita e como toda escrita tem sua sintaxe. Mas o que, nesta nossa tão inusitada poética de casas, me faz pensar na rua como escrita? O Professor Emmanuel Carneiro Leão ensina: a Viagem é a linguagem da paisagem; Uma paisagem é a linguagem das vias. Nesta perspectiva, a rua é a linguagem das casas. Uma rua não é propriamente um lugar material. Não é, como lembra Boaventura, o avesso das casas, mas um sulco, uma ruga, espaço interstício existente unicamente no movimento. É, portanto, o movimento que torna a rua viável. Uma rua só tem sentido enquanto possibilidade de caminhada e possibilidade de um destino. Não há estrada que não leve a parte alguma — mesmo uma rua sem saída e sem construções leva a algum lugar no qual muitos já precisaram ir. A rua só é rua porque necessitamos caminhá-la, porque as casas, enquanto moradas singulares, precisam ser lidas em seu conjunto na escrita do improviso dos pés, consumação ortográfica da poética das casas. É na caminhada que as casas tomam seqüência e sentido, escrevem um nome que vem antes de nós.
Caminhar é a única possibilidade de significar as ruas (por conseguinte, as casas), na exata medida em que o caminhar converte-se em parte fundante do habitar. A rua pertence à casa enquanto aquela que a identifica em sua singularidade de chegada e partida. Morar é somente uma parte do processo. A casa é uma imagem tão radical de intimidade e propriedade – no sentido do que lhe é próprio, como o corpo é próprio de cada um – que na apropriação propicia a proximidade e o distanciamento. Em toda casa, portanto, reside o gérmen de outra casa, e com ela nos sonhamos para além da sua imobilidade. Em primeira instância, é a casa que, através das possibilidades dos destinos que dela partem, deseja lançar-se no vento, em nós, para nunca mais voltar – como neste fragmento de um poema de Eugênio de Andrade:
A casa dorme, sonha no vento
a delícia súbita de ser mastro.
Como estremece um torso delicado,
assim a casa, assim o barco.
Uma gaivota passa e outra e outra,
a casa não resiste: também voa.
Mas em sua imobilidade, somos nós que, através da caminhada, cumprimos o destino complementar que a casa imprime. Em sua impossibilidade de movimento, somos nós que nos movemos, numa relação verdadeiramente ambígua, na qual a morada, em sua força de imobilização, é o ponto de partida para toda impermanência – sendo a espera o primeiro perímetro do desespero. É nesse desespero – mais que desprovimento, desmedida da espera – que a casa se complementa enquanto a mais forte imagem de acolhimento. Assim, é nessa força geomagnética que se articula o duplo movimento único de permanência e partida. Se a casa guarda e gesta na escuridão, ir para a rua é nos dar à luz. Se a casa nos oferta abrigo, a rua nos impele a ir. Se na casa nos demoramos, com a via nos comovemos. Mas isso não quer dizer que sejam forças opostas, mas tão somente complementares. Em nenhuma imagem, a relação com o destino, presente na matéria celeste das casas e dos homens, está tão evidente. A rua é aquela pela qual os caminhos se cruzam e se refazem em suas diversas possibilidades, o estado pelo qual as casas não se cansam de nós.
No ideograma chinês para céu 天 (tien) encontramos, numa acepção um tanto obscura, o sentido de destino, e não é preciso um grande esforço para perceber esse mesmo correlato na astrologia ocidental. Estas duas instâncias encontram-se profundamente unidas. A rua, imagem grosseira para destino, é, portanto, também uma sutil imagem de celestidade, remetendo a nossa questão essencial, em que céu e casa partilham de um mesmo espaço cênico. O sentido do ideograma é bastante amplo, uma vez que a própria imagem do céu tem forte e extensa presença no éthos cosmogônico chinês. O céu, assim como o seu ideograma, consuma-se na instância máxima de destinação e divindade. Um organismo transbordante e gerador que comporta todo o universo. Um pequeno passeio étimo-iconográfico pelo ideograma 天 é ainda mais revelador. Ele é formado pelo ideograma 人 (ren, homem), acrescido de dois traços. Atravessado por um só traço, teríamos 大 (tái, grande) – a ideia de algo ou alguém que ultrapassa determinado limite e por consequência pode ser considerado grande –, mas com seus dois traços 天, temos o que sugere a mais alta das coisas. O céu, extensão do espaço acima dos homens, insinua então um limite, instância ao qual o homem não é dado a ultrapassar. Ora, limite não diz somente de uma restrição, mas também de um ponto de chegada, de um lugar para o qual se avança, ainda que desconhecido. E da mesma forma que 天 se compõe a partir de 人, contendo e adornando simultaneamente, tanto o destino quanto o céu (e aqui ambos se conjugam sem separação) já se compõem e se mostram a partir da própria carnalidade do homem – centelha divida (céu/destino) que o adorna em seu percurso terrestre.
Para então contemplar o destino/céu é preciso encontrar a rota, esta já em nossos pés, como o barro de Prometeu, sujo de divindade, está em todo o nosso corpo. E é por já ser conosco, desde que a percorremos fundando o seu primeiro instante de rua, que podemos (e precisamos) desvendar as ruas caminhando, rumo à consumação de nosso destino. Ao seu ensinamento anterior, o professor Emmanuel acrescenta: Para os viajantes, cada via se apresenta separada e diferente da paisagem, dos viajantes, das outras vias. E, no entanto, nenhuma via desvia. Todas aviam a viagem dos viajantes na paisagem. Aviar a viagem na paisagem é estar debaixo do céu — o mesmo em toda parte e, apesar disso, nunca o mesmo. Uma rua é sempre outra rua e ainda assim a mesma rua em sua dinamicidade de caminhada e destinação. Caminhar as vias é portanto desvendarmo-nos caminhantes. Desvendarmo-nos é aviar a Via Láctea. Cada rua caminhada é uma cosmogonia, cada caminhante da rua é um argonauta. E é preciso manter-se em movimento caso não se queira perder das estrelas, sem astrolábios.
A caminhada potencializada na corrida é a necessidade de emergência dos caminhos. Em dois filmes que tratam do destino, Corra Lola, corra e Forrest Gump, o correr está relacionado à necessidade de refazer, a cada passo, as possibilidades de um acaso. Em Forrest Gump o céu é personagem insistente: ele abre e encerra o filme, como pano para fundo de uma pena ao vento. Quando a pena cai aos pés do protagonista, ele a guarda nas páginas centrais de um livro infantil, estas ilustradas com um céu entrecortado pelos fios de um poste, para ser recuperada anos depois pelo seu filho. Quando Forrest narra para seu par amoroso momentos de sua vida, o céu é o elemento mais evidente em suas recordações e ao desafiar Deus, aos gritos, no mastro de um navio, seu amigo mutilado de guerra está enfrentando nada mais que o próprio céu. Por outro lado, em Corra Lola, corra poucos são os momentos em que o céu de fato é evidenciado, insinuações apenas, mas ambos em momentos chaves na definição do destino da personagem: no momento quando é mostrado o relógio do supermercado e na cena em que Lola leva o tiro e, do chão, vê a bolsa de dinheiro “voar”, até dizer pare e a corrida recomeçar. Gump e Lola são imagens do desterro de si, drama fundamental humano, pelo qual nos movemos à procura de nós mesmos. E é por isso que a corrida é tão importante no horizonte das realizações de ambos os personagens. Tanto João do Rio quanto os Situacionistas, pensadores da rua, evocam para a caminhada um lugar de auto-conhecimento. A deriva (no caso dos Situacionistas) e a flanérie (em João do Rio) seriam as únicas possibilidades de dar sentido às ruas, aos edifícios e a nós mesmos. Ambos falam de uma psicologia das ruas (os Situacionistas cunharam o termo psicogeografia). Queriam entender a real “metafísica” entre as ruas e o homem, porque nos fascinam tanto com seu comportamento deveras humano. Mas a questão nunca foi psicológica. A psicologia se detém no que o homem compreende como um recorte do corpo denominado “alma” ou “mente”. As ruas tocam o corpo inteiro. Aliás, as ruas tocam até mesmo a parte desconhecida de nosso corpo — a mesma que um dia se encanta tão fortemente com o mundo que entra em combustão espontânea. Tanto Gump quanto Lola correm porque sabem que somente os pés podem levá-los a algum lugar. Hermes recorria ao mesmo aparelho. A psicologia não pode jamais explicar a hermenêutica dos pés ou a emergência dos destinos.
Mas as ruas, em sua complexidade lexical, compõe uma sintaxe delicada, onde uma curva pode desviar para lugares hostis. Uma simples mudança de via pode tirar de uma região segura e levar a um mundo perigoso. De uma pracinha em Cascadura, com gangorra e balanço, decidimos se queremos entrar numa rua arborizada, calma e aconchegante à direita ou se preferimos, seguindo pela esquerda, uma avenida escura e triste à beira da linha do trem. O risco de virar uma esquina e mudar de universo, a fragilidade da sintaxe prevista na própria sintaxe das ruas, nos faz deparar a cada instante com o risco de ter o próprio destino alterado. Há ruas que se enganam de cidade e há ruas que se enganam de país. Estas parecem ocupar sozinhas um lugar que não lhes pertence.
Mesmo um corte transversal por ruas que forçam uma verticalidade é suficiente para desdobrar o espaço. Estas então se apresentam lugar outro, prontas a se adequar por encaixe a qualquer cidade que não aquela onde se encontra. Mudam de figura só porque a percorremos por outro ângulo. Exemplo concreto se mostra quando cruzamos o Centro do Rio de Janeiro a partir da Rua do Lavradio, na altura da Riachuelo, passando pela Regente Feijó e pela Alexandre Mackenzie, até chegar na Ladeira do Livramento na Gamboa. Realizar esse trajeto horizontal (poucos o fazem), quando a Presidente Vargas, a Marechal Floriano e as modernas avenidas do Centro nos forçam um sentido vertical em direção a Praça XV, é presenciar a possibilidade daquele bairro, caso este fosse realizado naquela direção. E isso pode ser decisivo quanto às considerações das ruas, onde cada ângulo é outra rua, cada rua, universo. Por vezes, nos deparamos com ruas cuja atmosfera muda bruscamente quando passamos de um trecho a outro. A rua General Savaget em Marechal Hermes, estreita e de prédios baixos, lembra-nos a de uma cidadezinha litorânea na baixa temporada (ainda que seja um bairro bem afastado do mar), com lojinhas antigas, mercadinhos, mercearias, tabacarias, bares, até desembocar abruptamente no bulevar que a continua, a Avenida Oswaldo Cordeiro de Faria, com condomínios militares da década de 30 e maciços edifícios republicanos numa praça central decadente. Entrando pelas ruas transversais, o cenário muda ainda mais agressivamente. Chegamos a um bairro absolutamente residencial, com casas de quintais ocultas sob árvores. Em certas ruas, sobretudo as próximas a linha de trem, somos observados por enormes sobrados margeados por árvores retorcidas de uma época ainda anterior.
Na sintaxe das ruas, cada pedacinho de calçada, margeada por casas únicas, arrebata de maneira única, tamanho é o contraste entre os edifícios. Basta olhar com sinceridade para eles. A Rua Lucídio Lago, no Méier, em frente ao número 233 não é a mesma em frente ao número imediatamente seguinte, o 217, aliás, continuação física do mesmo edifício. E é ainda mais radicalmente diferente do batalhão da polícia logo ao lado. O que dizem são díspares, modos distintos de a rua acentuar e pontuar sua escrita. Outro exemplo, para aqueles que estejam perto, são as duas casas do número 141 da Rua Cláudio da Costa, em Irajá. Ainda que dividam o mesmo número, ambas possuem densidade opostas, uma aérea e outra telúrica, criando tensão dramática sem propósito aparente. Há ruas que sonham sonhos de maneira incerta, como no caso da rua Achylles Brasil que termina numa quadra de futebol mal entroncada por outras ruas, criando silhuetas de rota única cruzada sobre si mesma. A rua dos cartórios em Nova Iguaçu, por sua vez, são duas ruas sobrepostas. Uma é acessada por quem vêm da estação do trem, onde a primeira visão que se apresenta é a de um cinema em estilo art-decó desativado em frente a um gorduroso terminal de ônibus. Esta é uma rua dura, urbana e triste, tomada por prédios baixos de escritório e pela vida corrida dos pequenos burocratas. Quem vem pelo outro lado, acessa uma rua calma e arborizada, com casas antigas e um centro cultural aconchegante. Estes exemplos são as provas concretas do tempo irregular, agindo diferente em cada espaço.
As ruas recordam seu passado de labirinto. Dissimulado, sem minotauros ou muros, ainda assim cheio de armadilhas. As galerias de lojas interligando ruas são tentativas de somar ainda mais vias, multiplicar os destinos, potencializar as curvas. A dinâmica do labirinto está em ampliar-se, não para fora, mas para dentro dele mesmo. Quanto mais interno, mais labirinto, efetivamente, ele se torna, multiplicado de desvios, de ligações, de ruas sem saída. Se por certos ângulos, adquire a virtude da dureza e refrata, com suas arestas laminadas, no destino do caminhante. As ruas, lagartas de desejos, desdobram outras ruas para economizar horizonte. Por isso a sintaxe das ruas é uma sintaxe tão móvel quanto as ruas. Age com a autonomia de um organismo programado segundo o movimento dos astros. Mas aqui é necessária a cautela. O conhecimento das regras pode decorrer no risco do exagero. Criar diretrizes em sua programação, a partir do poder outorgado por nossa essência celestial, é traí-la, pois que essa independe de nós. Os bairros planejados, os condomínios de luxo, a especulação imobiliária são aberrações, uma ofensa ao céu, uma tentativa grosseira de regrar o firmamento segundo a arrogância humana. E com isso, se esquece o ensinamento de Calvino: convictos de que cada inovação na cidade influi no desenho do céu, antes de qualquer decisão calculam os riscos e a vantagens para eles e para o resto da cidade e dos mundos.
Não pensemos, entretanto, as ruas como os únicos caminhos passíveis de serem viáveis. Falar das vias é falar de qualquer artéria que irriga a cidade. A rua, esse não-lugar de caminhança, é apenas uma das inúmeras metáforas para a via. As ruas asfaltadas não são mais ou menos viáveis que um beco, uma vila, uma linha de trem ou uma simples trilha por um terreno baldio. Toda via perfaz os caminhos até as casas e se interligam. Não há via que não seja humana — um rio só é navegável graças ao barco. Mesmo as linhas de trem, impiedosas na inflexibilidade dos trajetos, atravessando as partes mais solitárias dos bairros, não esquecem de fazer seu zootrópio de casas. Também ali se lê a escrita das moradas, em um ritmo de cópula.
E os caminhos ocultos são tantos quanto os que se mostram. Muitos invisíveis para quem anda a pé. O Google Earth é uma ótima ferramenta para percorrê-los, ainda que virtualmente. Os rios, hoje transformados em valões imundos — ah, se pudéssemos navegá-los! Faríamos o percurso por trás de cada quintal dos fundos, percorreríamos os becos aquosos voltados para o cu das casas, com suas bananeiras velhas, seus cães ladrando, seu silêncio antigo de roça. Com alguns cliques é fácil segui-los até os limites da cidade, quando, depois da ultima montanha, se perdem no obscuro abismo da selva.
Encontra-se até mesmo, com a ajuda do programa, as vias inviáveis. Em certa madrugada, recapitulando os caminhos que tinha percorrido durante o dia, reparei, pelo satélite, em uma via larga que cruzava a cidade, sem ser interrompida por nenhuma construção ilegal, apesar de atravessar várias favelas. Uma espécie de estrada imaculadamente verde que ia de Queimados a Jacarepaguá, com ramificações inesgotáveis. Fiquei tentando compreender que caminho seria aquele, pois apesar de extremamente largo e de boa visibilidade no mapa, passava pelo fundo das casas e dificilmente poderia ser detectado pelos transeuntes. Com algum esforço de memória, recordei as inúmeras hortas urbanas que existem no subúrbio, e entendi que estas eram lugares por onde se podia entrever esta via misteriosa. E então compreendi: tratava-se do trajeto das torres da Ligth. Gigantes de alta tensão movendo-se calados numa procissão de aço. Um caminho possível somente para aquele que olha de (ou para) cima. Em Nova Iguaçu estes caminhos foram efetivamente transformados em uma rodovia: a chamada Via Ligth.
Todas essas vias, transitáveis ou não, com seus vasos, seus poros, seus líquidos linfáticos de lodo e fuligem, constituindo o organismo chamado cidade, estão aqui, nos limites de nossa anatomia humana. Cada cruzamento repete as articulações de um nosso corpo no firmamento. Ter corpo é morar nos próprios limites do corpo. Morar é desejar a viagem. Para considerar a sintaxe das ruas na poética das casas é preciso ser, antes de tudo, um viajante: encontrar, na morada, o rumo da viagem e, na viagem, a coordenada da morada. No sonho do viajante toda paralela de meio-fio se cruza no horizonte. No sonho do viajante sempre se chega onde se está. Assim configura-se a sintaxe das ruas, no sentido das vias — casas mobili. Responsável por uma escrita imprecisa, por vezes ilegível, sua poética autopsicografada no movimento só existe enquanto a ação de distanciar-se. Nenhuma via é feia, suja, incompleta, perigosa ou menos digna de ser sonhada, se percorrida com a sinceridade dos astros. Toda via evoca distâncias, invoca desejos de se perder no não visitado e guarda consigo a beleza das fachadas. Aquele que não consegue entender o fascínio das vias, por mais distante que chegue, não poderá compreender a verdadeira força de atração das casas. Para esse, aconselho a caminhar com o nascer do sol. À luz da manhã até deus se enternece e as palavras surgem caligrafadas na paisagem das habitações. Durante as tardes as ruas voltam a sincronizar-se para poder madurar seu pomar de lâmpadas.
Quando amas é preciso partir — com este verso, Cendrars tece o destino do viajante oculto em cada um que habita casas, nas ruas que levam para longe, na distância que se encurta no desejo. É preciso afastar-se ao ponto dos lugares se tornarem alheios a si. Morar é ser viajante de casas – o mundo inteiro está sempre aqui. Partamos.