número 12

O descolocado

Amílcar Bettega

O descolocado

Naquele tempo eu saía cedo de casa para procurar emprego, sem muita vontade de encontrar, é verdade, mas vestia a minha melhor roupa e assumia um ar que misturava obstinação, preocupação e seriedade, o que me deixava bastante convincente nesse papel de desempregado em busca de uma colocação que eu, modéstia à parte, sempre desempenhei muito bem.

O verão se aproximava e o sol brilhava desde cedo por todos os cantos, realçando as cores das coisas, pondo em tudo o que se movia, ou não, uma bela dose de vida.

Se lhes disser que eu rapidamente encontrava um parque e lá me via sentado na grama à sombra de uma árvore, vocês vão fazer, talvez, uma ideia não muito favorável de minha pessoa. O que lamento, sinceramente, mas ao mesmo tempo não posso contrariar alguns dos princípios que tenho entre os mais caros.

Na verdade, a simples ideia de que alguém pudesse, àquela hora do dia, com tal exuberância solar se espalhando pelas ruas, estar encerrado entre as paredes de um escritório ou de uma fábrica, me deprimia imensamente. Sabia muito bem que nesses nobres locais cumpriam-se tarefas muito importantes, mas sem muita relação com o sentimento de fazer parte do mesmo mundo que aquele sol iluminava com insistência. Eu tinha a impressão de que tudo o que estava de fato vivo estava do lado de fora, externamente. Como se só fosse possível viver do lado de fora. Assim, eu logo procurava me integrar a tudo o que representava esse “fora”. E o parque, as árvores, a grama, a cidade a céu aberto em comunhão com o sol generoso, tudo isso era a síntese do que para mim havia de mais vivo e ativo. E era ali que eu podia me colocar.

Portanto, sentado assim, às vezes até deitado sobre a grama e sob a sombra da árvore cujos galhos filtravam a luz e o calor que o sol derramava sobre nós, eu me sentia como um irmão daquela árvore e daquela grama.

É bom para um homem sem colocação sentir-se amparado pela fraternidade. Pois naquela árvore e naquela grama eu encontrava um grande apoio. E assim reconfortado, punha-me a refletir sobre a minha situação. Mas antes tirava a camisa e a pendurava num galho que a irmã-árvore me estendia com delicadeza para que minha camisa não se busca uma colocação. O cuidado com a vestimenta é um ponto que os potenciais empregadores nunca deixam de observar. No que me concerne, apesar das condições materiais limitadas – o que é compreensível, e até de bom-tom, quando se trata de um desempregado – o zelo com que eu portava minhas roupas era impecável.

Roupas simples, claro, mas corretas: uma camisa branca de mangas compridas e colarinho razoavelmente preservado, uma calça azul-marinho de um tecido sintético mas leve e adaptado à estação, e um par de sapatos que cobrira já uma boa quilometragem mas com um farto tratamento de cera e solas em bom estado.

Simplicidade e correção. Aí estão qualidades que poderíamos estender das roupas à própria pessoa que elas vestiam. Qualidades nada desprezíveis, vamos convir, para aquele que precisa empregar alguém. Se eu, por exemplo, precisasse dos serviços de alguém, não tenho dúvida que buscaria uma pessoa simples e correta.

O leitor poderia achar que pratico aqui o autoelogio, esse gênero literário cada vez mais frequente nas colunas de nossos jornais e revistas. Mas não era essa minha intenção. Apenas é que, ali, pensando nessas coisas, eu tentava realçar minhas qualidades e manter uma postura positiva, apesar da fragilidade a que minha condição me remetia. Nesse aspecto creio que os psicólogos e consultores de recursos humanos aprovariam minha atitude.

Obviamente isso não é motivo para esconder minhas limitações. Nunca soube fazer grande coisa, é verdade, porém sempre estiveram entre as minhas características o empenho e certa abertura de espírito para ampliar os horizontes de conhecimento e aprender novas tarefas de maneira a satisfazer um suposto empregador. Sem ser muito inteligente, seria, porém, um exagero me tacharem de retardado mental. Na presença de um chefe paciente e compreensivo, eu seria capaz de render de maneira bastante satisfatória.

O mundo é grande e generoso, há espaço para todos!

A vantagem de refletir sob a sombra de uma árvore é que chegamos a observações desse tipo. Se eu estivesse sob o céu de néon de um shopping center seria mais difícil fazer essa constatação. Assim, imbuído e fortalecido por essa ideia positiva do mundo, ali, deitado ao pé da árvore, eu me preparava para ir em busca do meu lugar nesse mundo.

Na hora do almoço, as ruas e os parques recebiam mais gente e o espetáculo se renovava. Agora, além do sol sobre a cidade, o movimento das pessoas saindo do trabalho para irem almoçar dava ainda mais vida ao dia, que àquela hora explodia em exuberância. Uns iam aos restaurantes, outros vinham comer sanduíches no parque, outros ainda aproveitavam para ler um livro ou um jornal. Muitos homens de paletó e gravata, elegantes apesar do calor, davam prosseguimento aos seus assuntos do escritório, agora com menos formalidade.

Era de fato um prazer estar ali e fazer parte de todo aquele mundo em movimento. Era quando eu vestia outra vez a camisa, me despedia da irmã-árvore e saía com um passo firme para me misturar aos outros.

Mesmo sendo a hora do almoço, as pessoas tinham consciência de que não podiam perder tempo. E eu também entrava nesse ritmo e imprimia uma certa pressa no andar, o que me caía muito bem. Quando, por exemplo, num cruzamento alinhávamos todos no cordão da calçada diante dos carros que passavam em velocidade à nossa frente, eu mostrava bem o meu ar de impaciência. Então o sinal abria para os pedestres e eu era o primeiro a descer o cordão e a chegar ao outro lado da rua, exultante e sempre com esse meu ar obstinado e sério de quem sabe o que quer.

Naquela época eu tinha um belo vigor nos passos, a cabeça erguida, e meu rosto exprimia uma preocupação que convinha bem à minha condição de homem em busca de uma colocação.

Literatura

Um homem sai de viagem. Ele apanha uma mala, uma pequena valise onde dispõe pouquíssimas coisas: duas mudas de roupa, alguns livros e o necessário para a toalete pessoal. Esse homem chega a um quarto de hotel. Em um canto junto à janela, há uma mesa, até um pouco maior do que as mesas que normalmente encontramos nos quartos de hotéis. Ele caminha até lá, olha pela janela, as primeiras luzes começam a se acender na rua e nas vitrines das lojas, é um fim de tarde como os que se repetem todos os dias pelas cidades: as pessoas saem do trabalho e se dirigem às suas casas, algumas vão encontrar um amigo, beber qualquer coisa no bar, ir ao cinema, ao restaurante, etc.

O homem coloca a valise em cima da cama, abre-a, apanha os livros e os dispõe sobre um canto da mesa. Abre as gavetas da mesa, que naturalmente estão vazias. Ele senta, acende um cigarro, pega um livro. A noite vai caindo rapidamente, ele não acende a luz do quarto, deixa-se ficar no escuro, olhando através da janela, um livro na mão.
O que passa pela cabeça desse homem? Onde andará seu pensamento? O que ele vê de fato? Em quê ele pensa? Quais serão os seus próximos passos? O que o trouxe a esse hotel? E a essa cena, que vai-se tornando cada vez mais baça porque enquanto nos perguntamos essas coisas a noite cai por completo e nos impede de distinguir, em meio à penumbra espessa que já se instalou no quarto, a cama da valise, a valise da mesa, a mesa dos livros e os livros do próprio homem que, imaginamos, continua sentado à mesa?

***

Em uma outra cidade, um outro homem acaba de girar a chave da porta da sua casa. Ele aguarda alguns segundos antes de abrir a porta. Não que hesite, mas antecipa mentalmente a imagem que vai ver em instantes, uma imagem que se repetiu diariamente por anos a fio: a posição do sofá, o primeiro móvel que se entrega à visão, a prateleira com livros, a mesa de jacarandá sob a janela. Ao longo de vários e vários anos deparou-se com essa imagem todos os dias sem mesmo se dar conta de que a via, sem reparar nos detalhes, nas diferenças sutis que a cada dia faziam uma imagem diferente da anterior: podia ser a inclinação da luz que entrava pela janela naquele dia, sua intensidade, a posição da persiana, uma revista aberta sobre o sofá, o resto do café na xícara sobre a mesa.

Agora ele pensa em cada um desses detalhes, nas possíveis combinações desses detalhes, projeta uma rede infinita de possibilidades, e deixa-se ficar, a mão na chave, prestes a empurrar a porta e se deparar, enfim, com a imagem da sua casa desde a porta da entrada.

***

Apoltrona é confortável, recebe seu corpo com delicadeza, como se fosse uma grande mão que lhe sustentasse o peso num contato quente que se prolonga desde as espáduas até a parte anterior das coxas. Ele tem um livro na mão. Ele lê, deixa-se levar pelas palavras, que se unem em frases, que se estendem pelas páginas. Seu pensamento responde a cada palavra, a cada frase, com uma sucessão de imagens e de outros pensamentos que se encadeiam e que dão conta de um universo distante, muito diferente, ou pelo menos um universo que não é o mesmo constituído por aquela poltrona e aquele corpo que ela recebe num contato quente, com tanta delicadeza.
O homem lê, está sozinho, imerso no mundo evocado pelas palavras que lê, um mundo evocado pela sua leitura daquelas palavras, um mundo pleno e em movimento, mas onde ele está só e estático.

Ele é guiado pelas palavras mas ao mesmo tempo é ele que dá o senso a essas palavras, ele é conduzido para dentro de um universo que ele próprio engendra. Seus olhos percorrem rapidamente as linhas e, quando chega o momento de virar a página, antes mesmo que a sua mão e seus dedos completem o gesto, já o novo universo se afigura em seu pensamento, como um reflexo antecipado das palavras, independente
e imprevisível.

***

Está sentado à mesa, o cotovelo do braço esquerdo apoiado sobre o tampo de madeira; a mão, por sua vez, apoia a testa. O outro braço está também parcialmente apoiado na mesa, na altura do antebraço, e sua mão sustenta a caneta que desliza sobre a folha do caderno. Do rastro da caneta sobre o papel se levanta um leve cheiro de tinta, que ele aspira ao mesmo tempo que ouve, no silêncio que o circunda, o ruído da ponta da caneta roçando a superfície do papel e imprimindo na folha o traço negro de uma escrita que avança quase que de maneira autônoma, embalada pelo abraço da mão à caneta, pela leve pressão dos dedos que a sustêm e que fazem dela, a caneta, uma parte desse corpo curvado sobre a mesa. Braço, mão e caneta são uma só coisa. Também o tronco, as pernas, as coxas apoiadas pela cadeira, os pés em contato com o chão, o mesmo chão que sustenta a mesa formada por esse tampo de madeira onde está o caderno e em cujas páginas desliza a caneta, a mão, o braço.
O arco do tronco e da cabeça pendida une-se à mesa através do braço cujo cotovelo se apoia no tampo e cuja mão apoia a testa. Um circuito se estabelece e é como se o sangue do homem percorresse também a mesa, o caderno, como se tudo fizesse parte de uma só respiração, uma só matéria. Na superfície do papel, cada frase, cada palavra, é a chave de um mundo, uma janela que se abre para outra coisa: uma viagem, um quarto de hotel, uma porta, uma poltrona que acolhe confortavelmente esse que lê, uma mesa, uma caneta que percorre a página de um caderno, e a frase que avança de palavra em palavra, e cada frase, cada palavra…