Carlos Nejar
Palavra Parelha, de Aníbal Beça. Poesia. Rio de Janeiro. Editora Casa do Vento (Editora), 2008, 400 páginas. R$ 50,00
Aníbal Beça, poeta da Amazônia, sob quem nutre a raiz da fecundidade, capaz de trabalhar com habilidade na arte poética em todas as formas, desde o soneto ao haicai, tem vocação genesíaca.
Talvez a vocação generosa de sua terra, talvez a vontade tão absoluta ou imperiosa de se exprimir, a ponto de a linguagem ser metamorfose, que não é propriedade ovidiana e sim, propriedade de abismo.
A variedade dos seus ritmos e imagens se mescla à variedade de um mundo que exige sempre mostrar a indefinível face. E qual a face? São muitas e nenhuma, pois a linguagem se disfarça e toma muitas vozes para preencher a espessura do silêncio. E a espessura do silêncio é por onde a palavra nos vê ou assombra.
Há, por vezes, certo preconceito com a fecundidade, mormente num tempo de raquitismo criador, juntando a impotência à inveja, a pequena obra como grande proeza, desde que nasça de tempo. A verdadeira proeza é a mescla de qualidade e invenção, não importando o tempo que a produziu. E é inegável a visão peculiar de Aníbal Beça, a multiplicidade dos ritmos e das formas, o que vislumbrava William Blake em um de seus provérbios: “A exuberância é beleza”.
Há que haver na criação o espaço societário e respeitoso entre os poetas do menos e os poetas do mais, descabendo a mera avaliação daqueles em oposição a esses, quando todos se completam, conforme sua própria natureza e respiração do pensamento. O bosque deve conviver, harmoniosamente, com a floresta, ou vice-versa, porque ambos são importantes para o universo vivo.
Essa avidez de chama, avidez de refinamento da palavra, a avidez do ludus que persegue musicalmente a lógica, ou deixa-se arrebatar por ela, a favor do tempo do poema, a avidez de dizer ou bradar a existência das coisas, como se elas não pudessem repousar, a avidez de tudo cobrir com palavra, ou de a palavra não se calar nunca, faz com que admiremos, comovidos, esta sinfônica poética de signos e sonhos.
Sobretudo, pela maneira operosa com que, ao ser lida e nos lendo, também nos descobre.
Gilberto Freyre percebeu em Cícero Dias “um criador de símbolos”, mas símbolos “impregnados da experiência, do drama e das cores dos canaviais e das águas de Pernambuco”. Ainda segundo o autor de Casa-grande & senzala, Cícero é um artista que revela nossos valores regionais e brasileiros, “valores pernambucanos suscetíveis de universalização”. Ao fixar-se em Paris e atuar como poucos brasileiros terão até hoje atuado no ambiente artístico europeu do pós-guerra, Cícero Dias não se desviou desses valores – viveu sempre impregnado e magnetizado por eles, com uma intensidade de criação absolutamente telúrica e lírica, que é dos pontos mais fortes e altos de seu legado.