Renato Bittencourt
Poemas e Pequeno retábulo de Don Cristóbal, de Federico García Lorca. Tradução Walmir Ayala. Poesia e Teatro espanhol. Rio de Janeiro. Editora Calibán. 2008. 96 páginas. R$10,00
O Pequeno retábulo de Don Cristóbal é uma farsa para bonecos escrita por Federico García Lorca (1889-1936), o espanhol ou antes andaluz assassinado na Guerra Civil Espanhola (1936-1939), a chamada “guerra dos poetas”.
O texto é algo leve e bastante jocoso ao mostrar, com um sorriso sarcástico, a mecânica de um casamento de conveniência (com as consequentes infidelidades) e as relações entre criadores e empresários da arte e do entretenimento. Desde o início temos ocasião para o riso.
E o pequeno volume também estampa alguns poemas de García Lorca, tudo traduzido por Walmir Ayala (1933-1991), que não era exclusivamente um tradutor: mais que isso, também era dramaturgo, prosador, poeta e, assim como Lorca, circulou por mais de uma arte. Ter traduzido a peça e os poemas (entre outras obras desse e de outros grandes de Espanha) foi uma escolha, pois há um vínculo entre o poeta andaluz que circulou pelo mundo e o poeta gaúcho que viveu no Rio de Janeiro suas últimas quatro décadas.
Em uma pegada metalinguística, na última fala do Pequeno retábulo o personagem Diretor diz que “[...] os camponeses andaluzes ouvem com frequência comédias deste gênero sob os ramos grises das oliveiras no ar escuro dos estábulos abandonados. [...] Encenemos o teatro de espigas secas, soltemos os palavrões, que lutem no palco com o tédio e a vulgaridade a que estamos condenados [...]” (p. 95). Temos aqui um teatro que quer ir além da vulgaridade e da mesmice do mero entretenimento, que busca ser autêntico. Por isso a busca da raiz popular das comédias camponesas.
E por isso também encontramos no livro, principalmente nos poemas, uma mítica e uma mística de Espanha, com punhais, sangue e um sentimento trágico.
Porém, em uma Espanha varonil, berço de um código de honra da cavalaria que é a base do que entendemos ainda hoje por heroísmo e cavalheirismo, García Lorca acena com elementos e energias mais ligadas ao feminino: o mundo líquido do rio e do mar, a lua – que “é um pão para os pobres” (p. 83). Há mesmo uma recusa ao solar mundo masculino quando, no Pequeno retábulo, o personagem Poeta diz que “Não quero moedas de ouro. O ouro me parece fogo e eu sou o poeta da noite. Quero moedas de prata. As moedas de prata parece que estão iluminadas pela lua.” (p. 55)
Aqui o traço de união entre o autor e o tradutor: em sua obra, o gaúcho Walmir articulava uma semelhante recusa, buscando submergir em um mundo lunar, no breu da alma humana. No seu “Pranto por Federico García”, disse o poeta Walmir Ayala: “Teu canto quebrava espadas/ nos ares de Andaluzia,/ e as mães choravam os filhos/ de Espanha, que em ti morriam/[...] Ai, Federico García!” Na sua tradução de Federico García, Walmir buscou ser muito próximo da língua original de Lorca, por exemplo se recusando ao prosaico cigano para manter o termo gitano (que também existe em língua portuguesa), assim conservando suas reverberações de sangue e tragédia – porque é disso que estamos falando.