Majela Colares
Erotismo em João Cabral, de Janilto Andrade. Ensaios. Rio de Janeiro. Editora Calibán. 2008. 104 páginas. R$15,00
O poeta avança, verso a verso, na estrutura estética do poema e vai deixando ao longo desse fazer/pensar, filigranas poéticas que lhe fogem à própria percepção. Dessa forma, poema a poema, é que se constrói uma obra, como se fosse um monumento.
A poesia vagueia muito além da imaginação de quem a possui, materializando-se quando atingida pelo pensamento, se este chegar a uma sutileza quase inalcançável. É nesse instante que todo tempo/espaço são preenchidos por um contraste de sombras e luzes… o poema revela-se por inteiro.
Cabe ao crítico desvendar a linha dorsal seguida pela obra – a medula do poema – , assim como as filigranas que ficaram, às vezes cintilantes, às vezes opacas, ao longo dessa linha condutora enveredada pelo poeta, envolta a essa enigmática argamassa luz/sombra/luz.
Erotismo em JOÃO CABRAL, Rio, 2008, Editora Calibán, representa bem esse trabalho persistente do crítico garimpeiro. Janilton Andrade mergulha fundo nesse contraste luminoso/sombrio, da obra do autor de A educação pela pedra, exatamente na busca das filigranas que o poeta semeou ao longo da sua obra, para mostrar o que poucos ou quase ninguém percebeu: o lirismo cabralino. O antelirismo (como muitos defendem) do poeta pernambucano não é tão inquestionável quanto se pensa. Para a crítica academicista engessada e algumas correntes poéticas da atualidade, falar de lirismo em Melo Neto é algo afrontoso, pecaminoso.
Janilton pecou? Não! Atirem a primeira pedra. Apenas quebrou um paradigma. Mostrou que Cabral é, também, lírico, e mais… erótico. Coisa que nem mesmo João Cabral admitia quando afirmou “o que escrevi até hoje nada tem a ver com lirismo”.
Não pensa assim Andrade e aponta o lirismo negado pelo próprio poeta, afirmando que “em várias sequências da sua obra, mesmo não se apresentando explicitamente, há um ente que responde pelas relações linguísticas, afetivas, intelectivas e eróticas dos poemas. Trata-se do eu-poemático, do sujeito lírico, cuja presença é sentida em momentos como este, do poema lírico-dramático Morte e vida severina (auto de Natal pernambucano) onde se lê-sente, em linguagem contida, a presença do erotismo poético:
“ – E agora, se abre o chão e te abriga,
lençol que não tiveste em vida.
– Se abre o chão e te fecha,
dando-te agora cama e coberta.
– Se abre o chão e te envolve,
Como mulher com quem se dorme.”
No poema Imagem de vegetal, alumbra-se:
“tronco dessas pernas
Fortes, terrenas, maciças”
A leitura de Erotismo em João Cabral é agradável, imaginosa e leve. Os capítulos são curtos e diretos, ao modo dos versos cabralinos. Não existe arrodeios.
Com este livro Janilto Andrade aponta, com eficácia e competência, uma nova direção no estudo da poética de Melo Neto, levantando um debate que foge à regra unânime das análises e conceitos estabelecidos pela crítica em torno de uma obra que ainda tem muito a ser descoberto e revelado ao mundo da poesia.
Rio de Janeiro, 14 de março de 2009.